segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Filhos bastardos do cinema de guerra

Inglorious Bastards, de Quentin Tarantino é um de seus filmes mais maduros e políticos. Como justificar isso? Tentarei.
As influências de diretores como Sam Peckinpah e Sergio Leone continuam lá, (in)sãs e salvas. Desde a estética da violência, com direito a câmeras lenta e expressões desgraçadas dos personagens ao atirarem  de um a uma atmosfera de tensão e traição do outro.
Os primeiros 15 minutos são magistrais, uma abertura quase épica. Uma aula de cinema em "como criar tensão e gerar expectativa no espectador, parte um".
Me lembrou bastante o começo de Era uma vez no Oeste. Os gestos lentos, o silêncio, a espera, a não explicação ao espectador logo de primeira do que está acontecendo... Além disso, a trilha sonora misturando "Pour Elise" com um violão "flamenco", contextualiza a dramaticidade daquele momento e ainda atualiza o clássico de Beethoven.
A calma com que tudo se desenrola naquelas primeiras cenas na casa do senhor Lapadite: servir o leite, acender o cachimbo, a educação e polidez do Coronel e do chefe da família, a paciência e meticulosidade de cada gesto e palavra são impressionantes e provocam eficientemente a sensação de tensão quase superficial (de superfície, não falsa) pretendida pelo diretor. Além de ser uma fantástica maneira de se apresentar um de nossos protagonistas.
Momentos de tensão como esse são espalhados por todo o filme. A antecipação da chegada do Judeu Urso, com apenas o som do taco de beisebal ecoando de dentro da caverna, ou a cena das armas apontadas em direções opostas debaixo de uma mesa, e ainda uma, quase versão subversiva de cinderela, dentre outras são alguns exemplos.










Meu comentário deste ser um filme político, advem de dois fatores.
Um - todos os personagens são caricatos. Ninguém se salva. Americanos são burros e rudes, alemães são inquietos, fortes e raivosos, alguns simplesmente maus e ingleses são polidos e exagerados na dicção das palavras e em sua educação. Essas são algumas possíveis, mas não finitas interpretações. O que quero dizer é que não há dois lados caracterizados: maus e bons. Ambos os lados são atraentes em seus personagens e cretinos. Ninguém está imune aos terrores da guerra. Os próprios judeus, inesperadamente, estão sendo mostrados como assassinos em busca de vingança. Há um equilíbrio admirável entre os dois lados: Aldo Raine e Coronel Hans Landa de um lado, a judia e o soldado nazista simpático do outro, Hitler mimado e ridículo e Churchill gordo e de meias palavras, etc. Acho até que o comportamento dos judeus (violento e vingativo) é razoavelmente justificado pela caracterização também exagerada dos nazistas e pode ser tido apenas como um artifício para gerar humor durante o filme quase inteiro. O momento mesmo em que para mim esse discuroso muda é o que me levará ao segundo fator:
A cena final de Bastardos Inglórios me parece (e sei que é uma das possíveis interpretações) um discurso claro de Tarantino como uma crítica não só ao cinema de segunda guerra, como ao espectador comum e à própria guerra.
Quem não viu o filme, não leia o que vou escrever aqui:

Quando a sala de cinema pega fogo e todas aquelas pessoas estão sendo queimadas vivas, desesperadas por uma saída, aquele ato de justiça pretendido pela judia torna-se crueldade, vingança, desumano. É difícil rir ou tirar satisfação daquele momento, pelo menos para mim. E para finalizar vem o ápice do absurdo, quando os dois bastards metralham Hitler e seus acompanhantes, destruindo assim a fonte e a pirâmide do poder nazista. E não bastando mudar completamente os rumos da história, Tarantino reafirma a ação: Donny Donowitz metralha até destruir completamente a cara de Hitler, num ato e num ângulo quase Rambo ou filme de metralhadoras que o valha. É o momento que todos na platéia estavam esperando, mas não achavam, que ia acontecer. A ultra vingança, a vingança última do espectador. Dar a Hitler o que ele merece. Mas a cena é construída de forma tão exagerada que chega a ser patética. Ele está dando o que o público quer. Está dizendo, "é isso não é? sem nenhuma piedade. vamos destruir todos aqueles nazistas desgraçados." Mas no final das contas o bastard que o mata está se igualando às imagens do filme que estava passando, "O Orgulho da Nação", em que grande parte dos minutos mostrados é preenchido por muitas mortes, uma atrás da outra.

Bom. Resumindo. Creio que o filme mostra que numa guerra não há vítimas nem culpados. Ninguém está impune ou isento dos horrores, todos acabam se rebaixando aos atos mais terríveis e a crueldade passa a ser a lei.

A crítica que mencionei ao cinema feito pós 45 vem da forma de retratar Hitler, que além de recurso cômico,  é genial por nos mostrar quão ridícula era a maneira com que costumávamos pensá-lo: louco, sem personalidade, nenhuma simpatia, etc. Filmes dessa época retratavam comunistas e nazistas como robôs malvados, pessoas sem nenhuma compaixão. No máximo eram astutos e inteligentes, mas nunca mereciam um respiro de hesitação na hora de serem executados. Por serem inimigos (americanos e portanto, de Hollywood), não mereciam maiores complexidades de caráter. Deveriam ser vistos sem piedade.


Outro ponto que admiro é a narrativa instável, que não segue um padrão lógico nem previsível, muitas vezes fazendo exatamente o que não esperávamos.

E finalmente, como não poderia deixar de ser, Tarantino ama cinema, e neste filme sua devoção vai muito além das citações e claras influências. O cinema tem um papel fundamental na narrativa e nos personagens. É tida como metáfora em diversos momentos:

  • Quando Brad Pitt diz que um espancamento é o mais próximo de um filme que eles teriam, está falando de um cinema espetáculo, que gera entretenimento. 
  • Há o cinema como resistência, no caso do filme, levado ao extremo e usado como arma de vingança.
  • Espaço de encontro. Um local que reúne as pessoas.
  • Cinema de arte, a cima de qualquer nacionalidade ou teoria política (até hoje os filmes de Riefenstall são tidos como obras prima e o personagem do soldado inglês, um ex crítico de cinema, era um admirador do expressionismo alemão).
  • Cinema como propaganda e fonte de contágio de valores morais, por mais terríveis que possam ser.
Enfim, é pelas referências, pela capacidade de fazer rir e falar sério, pela reflexão que gera sobre a linguagem cinematográfica e a forma que esta lida com a história, pela maestria na execução de planos e cortes, diálogos como sempre inteligentes e exatos e por seus personagens sedutores... é que Bastardos Inglórios é um dos melhores filmes de Tarantino.

domingo, 8 de novembro de 2009

Frases que fazem sorrir

Este ano, Yoko Ono recebeu o prêmio Leão de Ouro de Lifetime Achievement na Bienal de Veneza.
Para comemorar, mais de mil outdoors foram espalhados por diferentes cidades da Itália. Bologna, Padova, Milão, Veneza, Florença, Roma, Mestre e Verona.
Conteúdo do outdoor, uma palavra: DREAM e embaixo, em letras menores, Yoko Ono 2009.
Uma iniciativa simples, uma palavra óbvia, um verbo infinitivo, quase um livro poema ao ar livre. 
Mas uma definição não é importante, o que importa mesmo é a reação das pessoas. 
Não há muito a ser dito... Creio que cada um pensa em outras muitas frases depois de olhar para o outdoor.
Tudo que sei é que me fez a faz sorrir e pensar que tudo é possível.




A dream you dream alone is only a dream
A dream you dream together is reality

Yoko Ono 

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A change is gonna come - Um primeiro passo

A ler, escutando "A change is gonna come" - Sam Cooke 
http://www.youtube.com/watch?v=wUT1WgHat6I



Bom dia!
então.
Tenho pensado em como é difícil olhar a nossa volta e perceber o que acontece.
Acabamos ficando tão absorvidos em nossos próprios problemas, familiares, amorosos, profissionais e com nós mesmos, que não tem muito espaço para outras preocupações.
E isso não é uma crítica. É apenas a realidade. Já é terrível para um motorista de ônibus ter que escutar diariamente críticas ao seu trabalho.. 
Um homem segurando no ombro sua camisa do flamengo levanta-se e chama-o de jumento porque este não quis abrir a porta em um lugar que não era mais ponto. Uma coisa é o motorista responder com educação ao passageiro que esta não é mais uma descida. Se ele abre ou não vai depender do julgamento de valor dele. E o outro, sem blusa, e sem modos, não tinha o menor direito de invadir seu direito de decisão e ainda chamá-lo de jumento. Pra piorar, o rapaz, que não percebeu que estava sendo mesquinho, continuou a conversa sobre a incompetência do motorista com os passageiros de trás. 
O que quero dizer é que vemos esse tipo de comportamento todos os dias. Como podemos nos concentrar em outras pessoas, no mundo, no aquecimento global, no desmatamento da Floresta Amazonica, nas decisões do ministro da educação, e tantos OUTROS    se tem sempre alguém nos deprimindo, nos desrespeitando, nos prejudicando ou nos desconcentrando? Uma pessoa com raiva não vai conseguir ser solidária, não vai ver os dois lados de uma situação, não será compreensiva. Estará pronta para descarregar sua raiva e insatisfação em outros. E assim por diante.
Então eu sugiro um pacto.
Uma tentativa geral e coletiva daqueles que conseguem ver essa situação acontecendo e que, como eu, querem mudar (alguma coisa).
Em primeiro lugar, com calma, tentar nós mesmos entendermos aqueles a nossa volta. Um chefe estúpido, uma pessoa mal educada, etc... As vezes eles tiveram um dia ruim... e se esse não for o caso, ter raiva deles e falar mal pelas costas não vai resolver nada. As pessoas sempre têm um lado que não conhecemos. Claro, você pode continuar não gostando do indivíduo, mas talvez em algumas situações, seja possível conversar com ele e mostrar que está sendo intolerante, incompreensivo, etc. 
E se você estiver numa situação como essa do ônibus e tiver vontade e abertura para falar algo, diga o que pensa. Mas sempre com calma. Porque no momento em que a gente começa a agir que nem o rapaz brutamontes do exemplo, parecemos imbecis descontrolados. Chamar o motorista de jumento não ajuda em nada, só prejudica. mas chegar pra ele e dizer, poxa mas o cara não sabia que o ponto mudou, abre lá pra ele, por favor? sei lá...
enfim, esse papo meio cristão é só uma tentativa de chamar atenção pra situações que vivemos em nosso dia a dia e que acabamos deixando passar.
Converse com as pessoas. CONVERSE MAIS!

Existe tanta gente nesse mundo e muitas são completamente diferentes de você.
Seja ela de uma religião que você detesta, fale coisas das quais você discorda ou o que for. Converse, quem sabe há alguma opção de diálogo?




domingo, 25 de outubro de 2009

Na praia com Agnès





Um andar calmo. Uma inquietude serena, o olhar vibrante e expressivo. Um encantamento com as coisas, próprio de uma criança. Agnès Varda olha para o mundo como se sempre fosse a primeira vez.

Essa mulher, senhora, cineasta, super simpática e carinhosa que desata a falar depois que se sente a vontade é uma força ambulante, energia impaciente, que esbanja conhecimento. Não somente um conhecimento de livros, mas um advindo da experiência, ingênuo, repleto de impressões e sentimentos.

Ela consegue extrair beleza de quase qualquer coisa. E gerar questionamentos das mais simples paisagens. E mostra no dia a dia que tudo está ali, depende apenas da sua forma de ver o mundo, de um ângulo, de uma espera por um plano perfeito, simplesmente do seu olhar.

Tive o privilégio de conversar com Agnès nos três dias em que esteve aqui para o Festival do Rio. Aprendi muito, apenas observando sua humildade, integridade, honestidade e senso de humor. Até mesmo fechar uma caixa com barbantes pode se tornar um evento e uma fita vermelha se transformar numa gravata enlaçada por ninguém menos que ela para ser um presente de despedida.

Para quem nunca assistiu um de seus filmes, aproveitem que há vários curtas e médias metragem no youtube. Eu recomendo “Salut Les Cubains”, “documentário” que ela fez em 1962, quando esteve em Cuba; Black Panthers, sobre o movimento dos Pantera Negras nos EUA e L’Opera Mouffe, uma montagem de imagens filmadas na Rua Mouffetard, em Paris, no ano de 58.

Conhecendo ou não sua obra, “As praias de Agnès” é um filme necessário. Não atinge apenas os cinéfilos ou amantes da nouvelle vague e de seu trabalho nesse período. Atinge a qualquer um que admire o belo e que preze por momentos de magia.

Agnès abre as portas de seus 80 anos e conta sua vida, seus temores, suas alegrias e suas dores. Te dá energia de vidas a fio apenas mostrando do que ela foi e é capaz até hoje. Além disso, é um filme de amor. Amor pela vida, por sua família, pelos filmes, pelas praias…

Um amor também incondicional pelo marido Jacques Demy, falecido há quase 20 anos, que por mais sofrer que possa ter causado, é lembrado com carinho, admiração e sem desespero, num clima “que seja eterno enquanto dure”.

Ao longo desses tres dias pude observá-la.

Varda ama cores. Anda colorida como só ela. Admirou e comprou vários vestidos brasileiros. Dá uma aula de empacotamento com direito a “Viu? Já podemos trabalhar profissionalmente numa loja de embalagens!”.

Na praia, no último domingo de sua estadia aqui, Agnès filmou o mar, procurava a linha do horizonte em meio aos reflexos do sol na tela de sua pequena câmera. Ajudei-a a criar sombras, mas o efeito não era o mesmo. Essa incapacidade a deixava indignada (“Não dá pra ver nada nisso! Não vejo nada! Que que eu vejo? Eu mesma, é o que eu vejo”). E na hora de fotografar o mar, ela não se apressava. Esperava a onda perfeita. Fez algumas tentativas, mas não desatou a fotografar como é de costume na era digital. Tirava uma foto. Não era o que queria, esperava… tirava outra. “Pas mal…”

Eu, na minha mudez estarrecida de admiração só escutava as lições que Agnès passava, assim, como quem fala de receita de bolo ou de sobre como tá quente o dia hoje. A impressão que me dá é que essa mulher transborda paixão. O lirismo presente em um simples comentário sobre a luz das sete da manhã, a mais bonita segundo ela. “Não há outra melhor que essa, a luz lateral. Veja como ela preenche as formas, dá textura…”

O deslumbramento que flores caídas no chão lhe causam, a vontade de conhecer museus, a curiosidade de saber lugares, bairros, de aproveitar cada momento ao máximo. Varda vive descobrindo o que está a sua volta. Fala de seus queridos amigos ou familiares com muito amor e admiração. Não faz nada para agradar ninguém.

“Você tem que alimentar o espectador. O diálogo ja é a cena. A questão é que não pode mostrar apenas duas pessoas se despedindo na estação de metro, você precisa dar sustância ao público” – disse em resposta a uma pergunta minha.

Nos últimos minutos antes de ir pro aeroporto, ajudei-a a arrumar suas coisas e ela filmou a praia do Leme cheia pela janelo de seu quarto, subindo a câmera dos desenhos das pedras portuguesas, passando pelo mar de gente até chegar a água. Esse diário de imagens que ela está construindo é bem mais interessante do que qualquer aula de cinema que pudesse dar falando. E ao final, fui presenteada com uma pose para que pudesse fazer um retrato. “Vou tentar sorrir pra você”.

Fotografei também as lindas flores que ela, muito decepcionada, teve de deixar aqui por restritas leis aéreas.

A senhora de cabelos bicolores que diz ter deixado assim só pra se divertir disse, como veredito, ter adorado as praias brasileiras. Gostou também do evento e de conhecer pessoas ávidas por cinemas.

Mesmo admitindo certas limitações físicas, decorrentes de sua idade, a calma e a segurança em seus gestos e palavras (palavras essas certeiras que vão sempre direto ao assunto), transpassam a sabedoria dessa jovem senhora.

Um coração sábio e vivido, um corpo um pouco cansado, mas teimoso que só ele. Linda, definitivamente uma das mulheres mais lindas que já conheci.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Relembrar é viver


American Boy é um filme que Martin Scorcese fez em 1978, dois anos após o grande sucesso de Táxi Driver, mas também imediatamente posterior à realização de New York New York, numa época em que passava por um momento de depressão e se questionava sobre sua vocação como cineasta, por talvez estar desviando do caminho que havia pensando em tomar quando decidira trabalhar com cinema.

"If this movie doesn't do big I'll shave, or start doing cocaine”.

Foi o que ele disse antes do musical sair em cartaz. Com a desaprovação do público confirmada e o fracasso de bilheteria após seu primeiro filme de grande orçamento, Martin acabou cumprindo uma das profecias.

E ele não fez a barba.

Em meio a boatos sobre um suposto relacionamento confuso com Liza Minelli e dúvidas sobre seu talento e suas escolhas como diretor, Scorsese faz American Boy, um média metragem de 50 minutos cujo tema e protagonista é um de seus amigos mais próximos naquele momento, Steven Prince.

Steven, que na época tinha 20 e tantos anos, havia exercido muitas profissões até 78, desde holdie de Neil Diamond até atendente em posto de gasolina. Mas naquele momento estava se consolidando no mundo de Hollywood, já havendo atuado em papéis secundários de Táxi Driver (Easy Andy) e New York New York. Mesmo bastante jovem Prince tinha muitas histórias pra contar e Scorsese, após pesquisas e anotações, resolveu chamá-lo para contar algumas de suas anedotas numa filmagem informal.

Apesar de encontrarmos alguns furos em sua vasta cinematografia, algo que me sinto a vontade em afirmar é que Martin Scorsese ama cinema e ama o que faz. Isso fica claro nos planos, na luz, no som, em cada detalhe de seus filmes, aos quais percebemos que ele deu toda a atenção possível, tirando, às vezes, até mesmo uma possível falha bem vinda ou deixando um tom superficialmente perfeito. Talvez por ser meticuloso demais, não deixa espaço para o acaso, para reações espontâneas ou erros.

American Boy é um respiro libertário em que tudo não precisava ser perfeito e bem acabado e um momento em que Scorsese abre espaço para o público se aproximar. Isso acontece em dois níveis: um é a forma que ele se coloca no filme.

Está sempre presente (visualmente ou por meio de sua voz, comentando ou fazendo perguntas), mas deixando-se de lado para destacar o verdadeiro astro, Steven Prince. Uma ótima cena para demonstrar isso é quando George, o dono da casa, vai abrir a porta para Prince e inicia uma (falsa?) briga, até que o mesmo, diz “You! Scorsese!”. Ao que este responde “What?”. Ou seja, ele só estava se restringindo ao seu papel de observador, deixando a ação se desenrolar e captando as imagens que se apresentavam a ele.

Martin Scorsese se mostra um verdadeiro maestro, que está ali para reger os instrumentos: luz, câmera, atores, o discurso, etc. Um belíssimo exemplo é quando George declara já ter ouvido de Steven que overdose não seria uma maneira ruim de se morrer. “You just get higher, and higher, and higher....” e quando Steven, do outro lado da sala começa a repetir também “higher and higher...”, Marty simplesmente faz um movimento com o braço indicando para a câmera fazer uma pan até chegar nele.

É esse equilíbrio entre protagonista e figurante que encanta. Ao mesmo tempo em que coordena tudo, muito ciente do que está acontecendo, é humilde e carinhoso. Não trata Steven apenas como um objeto temático ou um personagem, mas como um amigo.

Tão tenso de ter feito algo grande, com altas expectativas e responsabilidades, e ainda decepcionado com o resultado, resolveu se dedicar a algo que pudesse realizar rapidamente, entre amigos e sem grandes requisitos.

Tudo que ele precisava era de película, uma pequena equipe que fizesse o som e a câmera e um amigo cheio de histórias fantásticas para contar. Se verídicas ou não, isso não importava. O importante era a química entre Prince e Scorsese e Prince e a câmera. Ele domina o público com sua personalidade espalhafatosa e seus vários personagens, às vezes sombrio, outras hilário. Sem falar de sua presença física mesmo, muito marcante através da voz esganiçada, fundas olheiras, olhar esbugalhado, um jeito um pouco frenético e muito gestual de falar.

Entre momentos cômicos e absurdos, presenciamos também a vulnerabilidade de Prince ao falar sobre seu histórico com as drogas, a vez que matou uma pessoa e sua relação com o pai. Um dos depoimentos pérola é a descrição que mais tarde foi usada como uma cena por Quentin Tarantino em Pulp Fiction.

Assim, após mais ou menos, 12 horas de material filmado, 50 minutos foram selecionados na edição final, aos quais foi adicionada uma música de Neil Young, algumas cartelas e cenas de vídeos caseiros ilustrando o que seria a família de Prince.

O que nos leva ao segundo aspecto muito importante de American Boy: a aproximação do público através da exposição do dispositivo.

Seu tom quase caseiro e a intimidade com a qual foi realizado dá ao público a oportunidade de observar alguns dos procedimentos de feitura do filme, desde discussões sobre a quantidade de película no chassi, até frases como “Isso vai ter que ser editado, porque senão estragaremos o final da história”.

Vemos refletores que estão sendo usados como iluminação nos cantos do quadro e microfones “sobrevoando” suas cabeças. Percebemos a naturalidade do processo de filmagem, pela câmera na mão; sua mobilidade e enquadramentos soltos; o plano e o foco sempre ajeitados, à medida que as coisas acontecem e a maneira informal com que tudo está organizado. Por tudo isso, pelos cortes abruptos e pelo fato da câmera quase nunca filmar Steven de frente, que está quase sempre falando para Marty ou para todos, nos sentimos mais um no meio a roda de amigos, ouvindo histórias e dando risadas.

Ainda pensando em seu papel como maestro, aprendemos um pouco sobre Scorsese e seu processo como diretor e entrevistador, através de momentos em que percebemos que está guiando Steven, ao fazer pequenas perguntas que impulsionam o discurso e guiam a entrevista. Ou através do bloco de folhas que o acompanha sempre, certamente um roteiro com idéias e anotações de histórias que ele gostaria de colocar no filme.

A última cena é um epílogo que resume bem o sentido do documentário. Ao falar sobre o relacionamento recente com seus pais, Prince se vê requisitado a repetir-se algumas vezes, pois Scorsese acredita que o relato dramático foi contado de forma muito leviana. Acompanhamos a mudança no tom de voz e na forma com a qual ele fala e sentimos até mesmo que é doloroso falar seriamente daquilo.

Nesse momento temos todos os elementos a mostra: personagem, diretor e dispositivo e é onde Scorsese exerce mais ativamente seu papel, assumindo completamente sua função de regente, que antes poderia estar sublimada, mas que se pensarmos bem, estava sempre ali: na escolha do formato, na decisão de expor o dispositivo da filmagem, na única música de Neil Young “Time Fades Away”, etc.

. American Boy é um filme simples e sincero que não está em busca de nenhuma grande verdade, mas prova que qualquer dúvida que Scorsese ou qualquer um pudesse ter em sua vocação como cineasta é desnecessária.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Viajo porque preciso, volto porque te amo

Lembrando sempre que falo apenas dos filmes que pude assistir, os três que destaco na seleção competitiva nacional são, não por acaso, filmes que revolucionam, cada qual do seu jeito, a estética e a temática dessa geração cinematográfica nacional em que nos encontramos.

“Viajo porque preciso, volto porque te amo”, longa dirigido pela parceria de Karim Ainouz e Marcelo Gomes é um filme sensível e lindo. Uma beleza que não é óbvia, mas que advem da sutileza e do sofrimento de seu personagem principal, assim como da crueza e do lirismo sincero das imagens.

Ambos diretores haviam filmado e fotografado durante as buscas de locação ou até mesmo durante a produção de seus filmes anteriores que se passavam no nordeste brasileiro. “Cinema, aspirinas e urubus”, assim como “Céu de Suely” foram material bruto do novo longa feito pela dupla. Engraçado como aquele material de pesquisa, que teoricamente seria o rascunho dos filmes mencionados se transformaria em linguagem e memória de um novo personagem, completamente destacado e independente das histórias que contaram anteriormente.

Uma das coisas mais surpreendentes é que nada parece estar fora de lugar. Por mais que sejam usados diversos formatos: digital, película - 16mm, 35mm, Super 8 - máquina fotográfica, as imagens todas se encaixam na narrativa sofrida e à flor da pele desse personagem em constante deslocamento.

José Renato, protagonista que nunca vemos, mas que nos guia durante todos os 70 minutos com sua voz calma e forte, parte em busca de conforto e de esquecimento. Após o término com sua mulher, Joana, fato que só descobrimos após algum tempo de filme, o geólogo viaja a procura de consolo, na expectativa de poder voltar a viver sem sofrer, sem lembrar o tempo todo de sua galega. Ou simplesmente na procura de si mesmo, e de respiro, já que se encontra naquela situação em que não consegue se pensar desligado do outro e precisa descobrir essa sua nova identidade unitária e só e nem consegue ver a dor passar.

O processo de superação deste amor, pelo qual ele passa, momento com a qual quase todos podemos nos identificar, é tocante, emocionante e possivelmente até revelador. Ao acompanhá-lo, o espectador fica em um instante estado de "à beira de transbordar".

Não nos é apresentado dados externos sobre essa mulher ou sobre o relacionamento dos dois. Toda a fonte de informação que temos é a memória e a fala de José Renato. Ele mesmo não contextualiza muito nem tenta explicar porque teriam terminado, quanto tempo juntos teriam ficado e nem dá detalhes sobre a felicidade ou tristeza anterior. Fala como num fluxo de pensamentos, que se justificaria por ser um diário de bordo, já que esta viagem tem também um propósito profissional de avaliar a possibilidade de construção de um canal que resultaria da transposição das águas do rio São Francisco.

Entre lembranças e impressões de sua viagem, as divagações de Zé Renato vão formando uma colcha de retalhos, cada pedaço com uma beleza particular, com uma história rica de detalhes, se completando pelo diferente, se encaixando pelas imperfeições.

Marcelo Gomes fala que este filme surgiu da idéia de usar das imagens filmadas na busca por esse sertão místico já tão retratado, mas pouco conhecido, aquelas que mais os impressionavam e os emocionavam. Para isso, precisavam de um personagem capaz de abarcar toda a emoção, a tensão e os questionamentos pelos quais os diretores também passaram.

Fala também que esse filme foi um ótimo exercício para se pensar a arte-profissão que pratica.

“É difícil assistir o filme até o final, por ser tão pessoal. Mas ao mesmo tempo é ótimo, porque acho que fala muito do que nós acreditamos que é fazer cinema”.
Marcelo Gomes

Assim como as contradições das imagens mostradas, ora poéticas, ora sujas, ora inspiradas, ora borradas e tortas, o personagem passa por etapas comuns para alguém em sua situação, de confusão e insatisfação. Um dos momentos mais significativos talvez seja quando diz algo que pode ser compreendido como uma fala dos diretores em relação a sua profissão ou a esta região árida brasileira, ou simplesmente de José Renato em relação à Joana: “Sinto ondas abruptas de ódio e amor por você”.

Além disso, uma das melhores coisas do filme é não só sua complexidade de sentimentos, como a maneira com a qual lida com toda a tristeza e a desilusão. Não é um sofrer apocalíptico e sem esperanças. É um gosto amargo e um processo pelo qual ele sabe que precisa passar antes de ficar bem.

Viajo porque preciso, volto porque te amo é uma raridade da cinematografia brasileira que merece ser vista pelo máximo número de pessoas. Espero que motive outros a pensarem que é possível fazer um cinema delicado, autoral e brasileiro, com poucos recursos, mas bastante sensibilidade e criatividade.

Listagem Festival do Rio

Quase uma semana depois do término das atividades "Festivalísticas", a cidade começa a voltar ao normal. Um feriado para acalmar e colocar todos em dia com suas rotinas diárias.
Esta que vos fala, Raquel, acabou não conseguindo escrever durante as duas semanas do Festival do Rio porque estava trabalhando no mesmo. Sendo assim, minha rotina se dividia entre trabalhar, ver filmes e descansar por 4 horas, quando possível.
Isso não quer dizer, entretanto, que eu tenha esquecido minhas obrigações para com o site e para com qualquer pessoa interessada em saber sobre os resultados e impressões em meio aos 300 filmes estrangeiros e nacionais da décida edição do evento.
Por isso, resolvi destacar os melhores filmes dos 52 que assisti. Se possível, também prevenir contra algumas bombas e comentar sobre o grande número que fica naquele limbo entre o medíocre e o aceitável.

As três preciosidades do cinema nacional:
  • O Amor segundo B. Schianberg
  • Os Famosos e os Duendes da morte
  • Viajo porque preciso, Volto porque te amo
Curta brasileiro que se destacou:
  • Bom dia, meu nome é sheila ou como trabalhar em telemarketing e ganhar um vale-coxinha
Melhores Documentários:
  • American Boy / American Prince
  • When you`re strange
  • Doutrina do Choque
  • It might get loud
Filme com temática gay:
  • Sinos Silenciosos
Filmes interessantes pela temática:
  • Nollywood Babilonia
  • Os Yes Men Consertam o Mundo
Filme Biográfico do ano:
  • Amália
Filmes que decepcionaram:
  • Tokyo
  • Aventura Erótica
  • O ultimo verao de la boyita
  • O dia da saia
  • Maradona
Filmes no limbo:
  • eu matei minha mãe
  • Sem vc nao sou ninguem
  • trafico de almas
  • a pequenina
  • o mercado
  • I am happy
  • Barba azul
  • Hotel atlantico
  • arranca me a vida
  • Mamae foi ao salao
  • an education
  • distante nos vamos
  • the time that remains
  • che 2 - a guerrilha
  • 24 city
  • politist adjetif

Filmes a se evitar:
  • Um outro Homem
  • Corredor Noturno
  • A procura de paz
  • Cornucopias
Filmes que me surpreenderam (nem tanto supresa em alguns casos, mas certamente foram os melhores longas ficção que assisti):
  • Bad lieutenant
  • 500 dias com ela
  • como desenhar um circulo perfeito
  • distrito 9
  • o pai dos meus filhos
  • white material
  • as praias de agnes
  • 35 doses de rum
  • O rei da fuga
  • aquario
  • mother
  • inglorious bastards